O Uraguai
BASÍLIO DA GAMA · 1769 · ARCADISMO
Poema épico que narra a guerra entre portugueses e espanhóis contra os índios guaranis das missões jesuíticas no sul do Brasil, no século XVIII.
guerra guaranitica · indigenismo · epopeia · colonizacao
Ensaio da Equipe Subsolo Ponto · 2 fontes no pé da página
Uma guerra real no extremo sul
Publicado em Lisboa em 1769, O Uraguai parte de acontecimentos então recentes: a chamada Guerra Guaranítica, travada em meados da década de 1750 no atual Rio Grande do Sul. Pelo Tratado de Madri, de 1750, Portugal e Espanha haviam redesenhado suas fronteiras na América, e os Sete Povos das Missões, aldeamentos guaranis organizados por jesuítas espanhóis, deveriam ser transferidos para o domínio português, com a mudança forçada de sua população. Os guaranis resistiram, e exércitos ibéricos aliados marcharam contra eles. É essa campanha, comandada do lado português por Gomes Freire de Andrade, que o poema de Basílio da Gama transforma em matéria épica, em cinco cantos (ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, [s.d.]).
O poema é também, e declaradamente, uma obra de circunstância política. Escrito no auge do governo do Marquês de Pombal, que expulsara os jesuítas de Portugal em 1759, O Uraguai abraça a versão pombalina do conflito: a de que os padres teriam instigado a resistência guarani para preservar seu próprio império nas missões. Basílio da Gama, que na juventude fora aluno e noviço dos jesuítas, tinha razões pessoais para essa adesão, e o poema lhe valeu o favor do regime (ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, [s.d.]).
Uma épica contra o modelo camoniano
O interesse literário do poema começa pela forma. Em contraste com a tradição de Os Lusíadas, oitava rima, dez cantos, maquinaria mitológica, Basílio escreveu cantos curtos em decassílabos brancos, sem rima, com andamento ágil e cenas quase teatrais. A escolha dos versos brancos aproxima a épica do gosto neoclássico do Arcadismo. O resultado é um poema breve para os padrões do gênero, que se lê, e se ouve, quase como uma narrativa dramática (BASTOS, 2003/2004).
O tratamento dos vencidos concentra uma tensão do poema. Embora escrito para celebrar as armas ibéricas e condenar os jesuítas, o poema dá espaço aos guaranis: os guerreiros Cacambo e Sepé, que enfrentam os europeus com bravura e dignidade, e a jovem Lindoia, figura de amor e sofrimento. Essa representação dos indígenas contrasta com a tese oficial da obra e mantém aberta a leitura do poema (BASTOS, 2003/2004).
Da propaganda ao patrimônio
No século XIX, os românticos brasileiros, empenhados em fundar uma literatura nacional sobre a figura do índio, retomaram o poema como precursor do Indianismo: ali estavam o guerreiro nativo heroico e a natureza americana como cenário épico. A presença desses elementos permite ler O Uraguai como parte da formação de uma literatura nacional.
Uma leitura contemporânea pode acrescentar outra camada: o poema fala de um episódio real de destruição de um povo, e sua beleza convive com a propaganda que o motivou. Ouvir O Uraguai hoje pode ser uma experiência de várias vozes ao mesmo tempo: a do poeta árcade e seu verso límpido, a do panfleto pombalino e a dos guaranis que a história oficial quis vencidos e o poema, à revelia de si mesmo, preservou.
Sobre esta edição
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Fontes
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Consultadas na íntegra
- ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Basílio da Gama: biografia. Rio de Janeiro: ABL, [s.d.]. Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/basilio-da-gama/biografia. Acesso em: 23 ago. 2026. academia.org.br
- BASTOS, Alcmeno. Entre a bondade natural e o discurso ilustrado: o índio em O Uraguai, de Basílio da Gama. O Eixo e a Roda, Belo Horizonte, v. 9/10, p. 247-264, 2003/2004. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/o_eixo_ea_roda/article/view/27893/21693. Acesso em: 23 ago. 2026. periodicos.ufmg.br
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