UNDERSTORY.OBRAnaturalismo · 1890

O Cortiço

ALUÍSIO AZEVEDO · 1890 · NATURALISMO

A vida coletiva e brutal de um cortiço carioca, onde imigrantes, negros e mestiços se misturam sob o olhar determinista, retratando a sobrevivência humana como uma luta animal.

classes populares · determinismo · imigracao · rio de janeiro

Ensaio da Equipe Subsolo Ponto · 3 fontes no pé da página

Uma habitação que vira personagem

Publicado em livro em 1890 (TAMANO et al., 2011), um ano e meio depois da Abolição e meses após a Proclamação da República, O Cortiço toma como protagonista não um indivíduo, mas um espaço: a habitação coletiva que se multiplicava no Rio de Janeiro do fim do século XIX, abrigando lavadeiras, operários, imigrantes e toda a população pobre que a cidade oficial preferia não ver. O cortiço do romance nasce, cresce, fervilha e se transforma como um organismo, e Azevedo o descreve com essa lógica.

A premissa é simples e poderosa. João Romão, taverneiro português de ambição feroz, ergue palmo a palmo uma estalagem nos fundos da sua venda. Ao lado, no sobrado burguês, vive o também português Miranda, comerciante estabelecido que despreza o vizinho e é por ele invejado. Entre a venda, o cortiço e o sobrado, o romance arma um sistema de vasos comunicantes onde dinheiro, trabalho, desejo e ascensão social circulam sem descanso.

Há um detalhe na origem dessa fortuna que o resumo escolar costuma apagar. Tamano et al. (2011) registram que o capital inicial de João Romão vem de Bertoleza, mulher escravizada com quem ele se junta e a quem concede uma carta de alforria que se revela falsa. A ascensão do português está assentada, desde a primeira página, sobre uma fraude contra uma mulher negra.

Zola aclimatado ao trópico

A dívida com o Naturalismo francês é declarada, e a crítica aponta L'assommoir e Germinal, de Émile Zola, como inspiração do projeto (TAMANO et al., 2011). O que dá ao romance seu lugar próprio é o que ele tem de não importado: o determinismo de escola aparece filtrado por questões brasileiras: a escravidão recém-abolida e suas sobrevivências, o encontro entre o imigrante português e o trabalhador nacional, o calor tratado como força do meio físico.

Esse filtro tem custos que a leitura atual não pode ignorar. Tamano et al. (2011) leem o romance, ao lado de Canaã, como testemunho da mentalidade da época: as teorias raciais em circulação, a mestiçagem e as políticas de branqueamento aparecem no desenho das personagens: a mulata sensual, o malandro, o liberto estigmatizado pela escravidão. Já o europeu, mesmo pobre e trabalhador como os vizinhos, é apresentado como superior. Ler O Cortiço hoje é também ler um documento de como a ciência oitocentista pensava, e deformava, a sociedade brasileira.

O sol, e uma advertência sobre lê-lo fora de contexto

A frase mais citada dessa leitura determinista, a que aponta o sol como único causador de tudo aquilo, merece cuidado. Figueiredo (2018) mostra que ela aparece dentro da narração de uma briga entre os moradores do cortiço de João Romão e os do Cabeça de Gato, depois da morte do capoeira Firmo, assassinado pelo português Jerônimo. Separado do contexto, o trecho parece de fato acusar o sol e o trópico pela ferocidade das pessoas; devolvido à cena, faz outro trabalho.

Figueiredo (2018) vai além e questiona o julgamento corrente sobre o autor, tratado desde o fim do século XIX como exemplo escolar de naturalismo de segunda mão, e examina se procede o antilusitanismo de que tantas vezes foi acusado. Não é consenso, e é justamente por isso que vale registrar que a leitura do romance continua em disputa acadêmica, e não fechada.

O painel humano

Poucas obras brasileiras do século XIX reúnem galeria tão variada: a lavadeira Rita Baiana, o português Jerônimo, a quitandeira Bertoleza, Pombinha, e dezenas de figuras menores que entram e saem das cenas coletivas como numa multidão real. O narrador raramente se detém num interior psicológico. O instrumento dele é o comportamento observável: o gesto, o corpo, a voz na algazarra comum.

Por que ouvir

O romance é feito de cenas coletivas: o acordar do cortiço, a briga, a festa. São páginas de muitas vozes ao mesmo tempo, escritas para dar a impressão de barulho.

Lido em voz alta, esse barulho deixa de ser um efeito descrito e passa a ser uma coisa que acontece com o ouvinte.

Sobre esta edição

A fonte do texto que a narração lê é o Wikisource em português. O arquivo veio de pt.wikisource.org.

Fontes

Cada afirmação de fato deste ensaio se apoia nas fontes consultadas na íntegra. As de acesso parcial estão marcadas como tais e não sustentam nada aqui.

Consultadas na íntegra

  1. TAMANO, Luana Tieko Omena; SANTOS, Poliana dos; MAGALHÃES, Gildo; MARTINS, Ana Claudia Aymoré. O cientificismo das teorias raciais em O cortiço e Canaã. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 18, n. 3, p. 757-774, 2011. DOI: 10.1590/s0104-59702011000300009. doi.org
  2. FIGUEIREDO, Mônica. Sob o sol tropical: o imigrante português no Rio de Janeiro de Aluísio Azevedo. Alea: Estudos Neolatinos, v. 20, n. 3, p. 239-256, set./dez. 2018. DOI: 10.1590/1517-106x/203239256. doi.org

Recomendadas, não consultadas

  • SANTOS, Vivaldo Andrade dos. Uma leitura econômica de O cortiço, de Aluísio Azevedo. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 54, p. 53-66, 2012. DOI: 10.11606/issn.2316-901x.v0i54p53-66. Leitura seguinte para quem quiser seguir o dinheiro dentro do romance. doi.org

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Como este texto foi feito

O rascunho foi escrito com ajuda de inteligência artificial. Depois disso, cada afirmação de fato deste ensaio foi conferida contra as fontes listadas acima, uma por uma. Datas, edições e números que não resistiram à conferência foram cortados em vez de arredondados. As fontes foram conferidas uma a uma, e o que não deu para conferir saiu do texto. A revisão editorial humana está concluída.

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