Noite na Taverna
ÁLVARES DE AZEVEDO · 1855 · ROMANTISMO
Cinco jovens reunidos numa taverna contam histórias de amor, morte e horror numa noite de tempestade, obra que inaugura o gênero de terror e fantasia na prosa brasileira.
morte · horror · noite · ultrarromantismo
Ensaio da Equipe Subsolo Ponto · 2 fontes no pé da página
Um livro que o autor não viu publicado
Noite na Taverna é obra póstuma: Álvares de Azevedo morreu em 1852, aos vinte anos, e o livro só chegou à imprensa em 1855, organizado a partir dos manuscritos que o estudante deixou. O dado importa para a leitura. Tudo o que se conhece de Álvares de Azevedo foi escrito por um jovem entre a adolescência e os vinte anos, aluno da Faculdade de Direito de São Paulo, e publicado depois de sua morte por mãos alheias: o que cerca sua obra de lacunas sobre datas de composição e sobre o estado final que o autor daria aos textos.
Cinco vozes numa noite de tempestade
A estrutura do livro é a de um colar de narrativas, o que a crítica chama de relato de moldura, a forma de As Mil e Uma Noites e do Decameron: um narrador exterior cede a voz a personagens presos a um mesmo espaço e a uma mesma noite (PEREIRA, 2021). Numa taverna, em meio a vinho e tempestade, um grupo de jovens se reveza contando histórias: cada narrador dá nome a um capítulo, e cada história enfileira amores desesperados, mortes violentas, profanações e culpas que perseguem quem as carrega. O pedido recorrente de vinho e o estado de embriaguez atravessam o livro inteiro e funcionam como a linha que costura relatos à primeira vista dispersos; o último conto retoma o primeiro, e é esse retorno que fecha a moldura (PEREIRA, 2021). O procedimento da narrativa dentro da narrativa era caro ao Romantismo europeu, e Álvares de Azevedo o leva ao limite do macabro: os cenários são europeus e vagamente irreais, as paixões são absolutas, e a noite funciona menos como hora do dia do que como estado de espírito. Convém parar por aqui: parte do efeito do livro está no modo como as histórias se respondem umas às outras, e isso é melhor descoberto na leitura.
O lado escuro da segunda geração romântica
Álvares de Azevedo é o nome central da chamada segunda geração do Romantismo brasileiro, a ultrarromântica, marcada pelo culto da morte, do tédio e do sonho e pela devoção a Byron. O conhaque, o charuto e as mulheres da boemia que Macário exibe são a marca registrada dos heróis do byronismo brasileiro (ALVES, 1996). Noite na Taverna é o extremo em prosa dessa dicção: parte da crítica a considera a obra mais sombria do Romantismo brasileiro e costuma apontá-la como pioneira da ficção de horror no país, aproximando-a do conto fantástico europeu de autores como Hoffmann. É uma filiação que o próprio livro exibe sem disfarce, nos nomes estrangeiros, nas atmosferas góticas e no gosto pelo excesso.
E o excesso é escolha, não descuido. Nos textos em que discutiu teatro, o próprio Azevedo recusou o drama "sanguinolento" que se contenta em chocar, e defendeu que a cena violenta só se justifica quando carrega um valor literário capaz de despertar a sensibilidade; sem esse imperativo estético, dizia, sobra depravação e mau gosto (ALVES, 1996). O horror de Noite na Taverna é construído sob essa régua.
O poeta da ironia e o prosador do abismo
Quem conhece Álvares de Azevedo pela Lira dos Vinte Anos sabe que ele teorizou a própria duplicidade: sua poesia convive entre o idealismo etéreo e a ironia rasteira, como se duas almas escrevessem sob o mesmo nome. Noite na Taverna mostra uma terceira face, a do narrador de horrores, e é essa variedade, lírica, irônica, macabra, ensaística, comprimida numa vida tão curta que faz dele um caso singular na literatura brasileira. O livro breve de histórias contadas na taverna segue sendo sua obra em prosa mais lida, porta de entrada para um Romantismo bem menos comportado do que o dos indianismos e dos amores de salão.
Sobre esta edição
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Fontes
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Consultadas na íntegra
- PEREIRA, Danglei de Castro. Binomia e estranho em Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo. Revista Graphos, João Pessoa, v. 23, n. 1, p. 28-41, 2021. DOI: 10.22478/ufpb.1516-1536.2021v23n1.56468. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/graphos/article/view/56468. Acesso em: 25 ago. 2026. periodicos.ufpb.br
- ALVES, Cilaine. Álvares de Azevedo e o drama romântico. Trans/Form/Ação, Marília, v. 19, n. 1, p. 61-74, 1996. DOI: 10.1590/S0101-31731996000100004. Disponível em: https://www.scielo.br/j/trans/a/VYYxG6xnRM6Gd83J5VmDz7D. Acesso em: 25 ago. 2026. doi.org
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