Lendas do Sul
SIMÕES LOPES NETO · 1913 · PRÉ-MODERNISMO
Coletânea de lendas do pampa gaúcho, narradas com a mesma autenticidade linguística dos Contos Gauchescos, mergulhando no universo mítico e folclórico do Rio Grande do Sul.
gaúcho · lendas · pampa · folclore
Ensaio da Equipe Subsolo Ponto · 2 fontes no pé da página
O pampa sobrenatural
Um ano depois de dar voz ao gaúcho histórico nos Contos Gauchescos, Simões Lopes Neto voltou-se para o gaúcho mítico. Lendas do Sul, publicado em Pelotas em 1913, reúne narrativas sobrenaturais do Rio Grande do Sul: encantamentos, almas, tesouros guardados e criaturas que rondam a noite do pampa. O autor fixou em prosa trabalhada histórias de circulação oral, sem lhes tirar o sabor de coisa contada (INSTITUTO JOÃO SIMÕES LOPES NETO, [s.d.]).
O estudo de Lisana Bertussi analisa quatro das lendas mais significativas da publicação: a do Boitatá, a cobra de fogo dos campos, ligada aos mitos indígenas sobre luzes errantes; a da Salamanca do Jarau, a furna encantada do cerro do Jarau, onde se cruzam a moura encantada vinda da tradição ibérica e o imaginário guarani da fronteira; a do Negrinho do Pastoreio, o menino escravizado e martirizado que se tornou figura de devoção popular, a quem se pede ajuda para achar o que se perdeu; e a de Lunar do Sepé. O artigo informa que a publicação reúne 17 mitos, mas o sumário do EPUB publicado pelo projeto mostra que o volume é mais amplo: são 20 capítulos de conteúdo, seguidos por um capítulo de referências (BERTUSSI, 2006).
Três matrizes, uma cultura
Essas quatro lendas podem ser lidas, como propõe Bertussi, como alegorias de elementos da formação da sociedade gaúcha. Nelas se encontram a herança indígena, especialmente guarani, com seus mitos de origem e seus encantamentos da terra; a tradição ibérica trazida pelos colonizadores, com mouras encantadas, pactos e tesouros; e a experiência afro-brasileira da escravidão, que a lenda do Negrinho transfigura em narrativa de sofrimento e reparação. Simões Lopes Neto reelaborou materiais de circulação oral em forma literária, e é essa reelaboração que o estudo acompanha (BERTUSSI, 2006).
O interesse do autor pelo assunto não era episódico. Antes dos livros de ficção, ele já havia se dedicado a recolher o cancioneiro popular da região, num esforço de documentação da cultura gaúcha que era, ao mesmo tempo, trabalho de pesquisador e projeto de escritor (INSTITUTO JOÃO SIMÕES LOPES NETO, [s.d.]).
Da fronteira para o Brasil
Publicadas na sua Pelotas natal, as Lendas do Sul tiveram circulação discreta enquanto o autor viveu e ganharam reconhecimento depois de sua morte, em 1916. No século XX, o Negrinho do Pastoreio ultrapassou as fronteiras do estado, e o livro passou a ser lido em conjunto com os Contos Gauchescos: um dá a crônica do pampa, o outro dá seu avesso mágico.
Para a escuta, a prosa conserva marcas de sua origem oral: frases que criam suspense, repetições de contador experiente, o arrepio dosado. É uma forma de folclore brasileiro reelaborada literariamente.
Sobre esta edição
A fonte do texto que a narração lê é o Wikisource em português. O arquivo veio de pt.wikisource.org.
Fontes
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Consultadas na íntegra
- INSTITUTO JOÃO SIMÕES LOPES NETO. O escritor. Pelotas: Instituto João Simões Lopes Neto, [s.d.]. Disponível em: https://joaosimoeslopesneto.com.br/joao-simoes-lopes-neto/o-escritor. Acesso em: 23 ago. 2026. joaosimoeslopesneto.com.br
- BERTUSSI, Lisana. Simões Lopes Neto: lendas e mitos gaúchos. Boitatá, Londrina, v. 1, n. 2, p. 12-19, 2006. DOI: 10.5433/boitata.2006v1.e30670. Disponível em: https://ojs.uel.br/revistas/uel/index.php/boitata/article/download/30670/21640/141178. Acesso em: 23 ago. 2026. ojs.uel.br
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