Dom Casmurro
MACHADO DE ASSIS · 1899 · REALISMO
Bentinho, o Dom Casmurro, narra sua vida e seu amor por Capitu, a famosa 'Capitu dos olhos de ressaca', num relato em que o narrador talvez seja o menos confiável da literatura brasileira.
ciúme · traição · narrador-não-confiável · casamento
Ensaio da Equipe Subsolo Ponto · 3 fontes no pé da página
O homem que quis atar as duas pontas da vida
Bento Santiago, advogado velho e retraído, ganhou dos vizinhos o apelido de Dom Casmurro. Mandou reconstruir, num bairro afastado, uma réplica da casa em que passou a meninice na rua de Matacavalos, e, como a casa não bastasse para restaurar o que foi, decide escrever: atar as duas pontas da vida, na fórmula do próprio narrador.
Do outro lado dessa memória está Capitu, a vizinha de infância dos olhos de ressaca. A expressão virou proverbial. Ela é menina mais astuta e mais senhora de si que o filho mimado da casa ao lado. Entre os dois, ergue-se a promessa antiga de Dona Glória, mãe de Bentinho, de fazer do filho um padre, e circula José Dias, o agregado amigo dos superlativos, cuja eloquência serviçal move mais de um destino. Da casa paterna ao seminário, e do seminário à vida adulta, o relato acompanha esse amor desde a origem, até o ciúme entrar nele e passar a organizar tudo o que o narrador vê e conta.
O narrador em julgamento
O que parece um romance de memórias amorosas revelou-se, com o tempo, outra coisa: um problema. Tudo o que o leitor sabe passa por Bento, advogado de profissão. Ele constrói o relato como quem arma uma causa: seleciona lembranças, antecipa conclusões, pede a adesão de quem lê.
Durante décadas a crítica tomou a versão dele ao pé da letra. Franchetti (2009) descreve o segundo momento dessa fortuna crítica como inaugurado pelo livro de Helen Caldwell, O Otelo brasileiro de Machado de Assis, publicado nos Estados Unidos em 1960: ali a autora propõe ler o romance como peça judicial destinada a condenar Capitu e se apresenta abertamente como advogada de defesa da ré, pedindo que se reabra o caso depois de três gerações de críticos a julgarem culpada.
A virada não nasceu pronta no livro. Guimarães (2019) reconstitui a correspondência que Caldwell manteve entre setembro e dezembro de 1952 com o editor Cecil Hemley, da Noonday Press, enquanto se preparava a publicação da tradução dela para o inglês: ao revisar escolhas de tradução, os dois foram registrando o desacordo com a interpretação até então vigente, e é nessa troca que se assenta o terreno da leitura alternativa. A tese pública de 1960 tem, portanto, oito anos de bastidor editorial.
Um debate sem sentença, inclusive sobre a própria virada
A leitura de Caldwell também é discutida, e por dentro. Franchetti (2009) observa que as duas perguntas que a própria autora põe como foco do livro se anulam. Uma pergunta se a heroína é culpada de adultério; a outra, por que o romance é escrito de modo a deixar a decisão ao leitor. se a segunda subsiste, a primeira não pode ter resposta.
É um incômodo produtivo, e talvez o mais fiel ao texto. A pergunta que o romance planta é se dá para confiar no que Bento conta, e ela fica sem resposta de propósito. É essa ambiguidade, construída frase a frase, que alimenta o mais duradouro debate da literatura brasileira. Cada releitura desloca o fiel da balança; nenhuma o fixa.
Convém ao leitor de primeira viagem chegar sem veredicto pronto: o romance foi feito para que cada um julgue por conta própria, e para que desconfie do próprio juiz no caminho.
Por que ouvir
Bento fala com o leitor o tempo todo: interpela, corrige, pede licença, volta atrás. É prosa escrita para soar como alguém contando, e o argumento dele é feito de tom: a ressalva, a pausa antes de concordar, a insinuação que não se completa.
Na página é fácil correr os olhos e aceitar a versão dele. Ouvindo, o tempo é o do narrador, e a manobra fica audível.
Sobre esta edição
A fonte do texto que a narração lê é o corpus machado do NLTK, que reproduz a Obra completa publicada pela Nova Aguilar em 1994, em grafia moderna. O arquivo veio de raw.githubusercontent.com.
Fontes
Cada afirmação de fato deste ensaio se apoia nas fontes consultadas na íntegra. As de acesso parcial estão marcadas como tais e não sustentam nada aqui.
Consultadas na íntegra
- FRANCHETTI, Paulo. No banco dos réus: notas sobre a fortuna crítica recente de Dom Casmurro. Estudos Avançados, v. 23, n. 65, p. 289-298, 2009. DOI: 10.1590/s0103-40142009000100019. doi.org
- GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Helen Caldwell, Cecil Hemley e os julgamentos de Dom Casmurro. Machado de Assis em Linha, v. 12, n. 27, p. 113-141, maio/ago. 2019. DOI: 10.1590/1983-6821201912278. doi.org
Recomendadas, não consultadas
- Revista Machado de Assis em Linha (USP), arquivo completo em acesso aberto. Leitura seguinte para acompanhar o debate além do que este ensaio cobre. scielo.br
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Como este texto foi feito
O rascunho foi escrito com ajuda de inteligência artificial. Depois disso, cada afirmação de fato deste ensaio foi conferida contra as fontes listadas acima, uma por uma. Datas, edições e números que não resistiram à conferência foram cortados em vez de arredondados. As fontes foram conferidas uma a uma, e o que não deu para conferir saiu do texto. A revisão editorial humana está concluída.
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