Bom-Crioulo
ADOLFO CAMINHA · 1895 · NATURALISMO
O marinheiro Amaro, negro forte e corajoso apelidado de Bom-Crioulo, apaixona-se pelo grumete Aleixo, numa narrativa que é a primeira a retratar abertamente a homossexualidade na literatura brasileira.
marinha · homossexualidade · determinismo · tragédia
Ensaio da Equipe Subsolo Ponto · 2 fontes no pé da página
Um romance que ousou dizer o nome
Publicado em 1895, Bom-Crioulo é considerado por boa parte da crítica o primeiro romance brasileiro, e um dos primeiros da literatura ocidental, a colocar no centro da narrativa uma relação homossexual, tratada sem subterfúgio nem alusão cifrada. Foi também um dos primeiros romances brasileiros a ter um homem negro como herói (HOWES, 2005). Amaro, marinheiro negro de força admirada por toda a tripulação, apelidado Bom-Crioulo justamente pela docilidade do temperamento, apaixona-se pelo jovem grumete Aleixo. Que um escritor de vinte e poucos anos tenha construído um romance inteiro em torno desse afeto, no Brasil de 1895, poucos anos depois da abolição e da proclamação da República, explica tanto o escândalo da recepção quanto o longo silêncio que se seguiu.
O mar que o autor conhecia por dentro
Adolfo Caminha foi oficial da Marinha, e Bom-Crioulo é também um romance de quem viveu o que descreve: a rotina dos navios de guerra, a hierarquia rígida de bordo, os castigos corporais que a Marinha brasileira ainda aplicava a seus marinheiros, a chibata que, anos depois da morte do autor, provocaria a revolta de 1910. O romance se divide entre esse mundo flutuante e a Rua da Misericórdia, no Rio de Janeiro do fim do Império, com seus sobrados de cômodos alugados, onde os dois marinheiros encontram abrigo em terra. Poucos naturalistas brasileiros tiveram matéria tão diretamente observada.
O Naturalismo e seus limites
Caminha escreveu dentro da moldura científica de seu tempo, que classificava o desejo homossexual como patologia, e o vocabulário do romance por vezes reflete essa moldura. Mas a crítica moderna tem notado que a narrativa excede o próprio diagnóstico que enuncia: Amaro é tratado com uma atenção e uma dignidade que o Naturalismo raramente concedia a personagens negros, e sua paixão é narrada com uma seriedade que nada tem de caricatura. Essa tensão entre a doutrina da época e a simpatia do narrador é hoje um dos aspectos mais estudados do livro: a crítica lê nela um projeto afetivo que atenua o naturalismo e que explora, de forma pioneira e empática, os pensamentos de um personagem homossexual (MENDES, 2003). O romance diz mais do que sua ciência permitia dizer.
Do escândalo à redescoberta
A recepção imediata foi de choque e condenação moral, e durante décadas Bom-Crioulo circulou pouco, mencionado quase sempre como curiosidade escandalosa. Foi o século XX, sobretudo sua segunda metade, que inverteu o juízo: relido pelos estudos de literatura e sexualidade, reeditado no Brasil e traduzido para o inglês, o espanhol, o alemão e o francês, o romance alcançou um público internacional e passou a ser visto como obra pioneira e como um dos documentos mais singulares do Naturalismo em língua portuguesa (HOWES, 2005). Não é coincidência menor que 1895, o ano de sua publicação, seja também o dos processos contra Oscar Wilde, hoje lidos como momento decisivo na construção da identidade homossexual moderna (HOWES, 2005). Caminha morreu em 1897, aos vinte e nove anos, sem suspeitar que seu livro mais atacado se tornaria, um século depois, o mais lembrado.
Sobre esta edição
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Fontes
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Consultadas na íntegra
- HOWES, Robert. Raça e sexualidade transgressiva em Bom-Crioulo de Adolfo Caminha. Graphos, João Pessoa, v. 7, n. 2/1, p. 171-190, 2005. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/graphos/article/download/9459/5112/11651. Acesso em: 25 ago. 2026. periodicos.ufpb.br
- MENDES, Leonardo. Naturalismo com aspas: Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha, a homossexualidade e os desafios da criação literária. Gragoatá, Niterói, n. 14, p. 29-44, 1. sem. 2003. Disponível em: https://periodicos.uff.br/gragoata/article/download/33444/19431. Acesso em: 25 ago. 2026. periodicos.uff.br
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