UNDERSTORY.OBRAnaturalismo · 1888

A Carne

JÚLIO RIBEIRO · 1888 · NATURALISMO

Lenita estuda ciências e experimenta o próprio corpo; o naturalismo brasileiro no seu ponto mais escandaloso para a época.

desejo · ciência · escândalo · natureza

Ensaio da Equipe Subsolo Ponto · 2 fontes no pé da página

O romance que escandalizou 1888

Quando A Carne chegou às livrarias, em 1888, o mesmo ano da Abolição, o Naturalismo já se instalara no Brasil: Aluísio Azevedo publicara O Mulato e Casa de Pensão, e a escola de Zola era a novidade dominante entre os jovens escritores. Ainda assim, o romance de Júlio Ribeiro conseguiu chocar. Sua protagonista, Lenita, é uma jovem de formação científica invulgar para uma mulher da época, latim, matemática, ciências naturais, que, órfã, vai viver numa fazenda do interior paulista e ali passa a examinar, com a mesma curiosidade que aplicava aos livros, o próprio corpo e o próprio desejo. Era exatamente o que o título prometia, e a sociedade letrada reagiu de acordo: A Carne tornou-se o exemplo canônico do naturalismo brasileiro em seu ponto mais ousado, o livro proibido que todos conheciam. O escândalo teve efeito comercial preciso. Ao lado de O Homem, de Aluísio Azevedo, e de O Aborto, de Figueiredo Pimentel, o romance vendeu entre cinco e seis mil exemplares em poucos meses, número até então inaudito para livro brasileiro, e circulou menos como romance experimental do que como publicação obscena (MENDES; CAMELLO, 2019).

O gramático que virou romancista escandaloso

Júlio Ribeiro, nascido em Sabará, Minas Gerais, em 1845, fez carreira na província de São Paulo como professor e jornalista de combate. Antes do romance, seu nome já era conhecido por outra obra, de natureza bem diferente: a Grammatica Portugueza, de 1881, que aplicou ao estudo da língua o espírito cientificista do tempo e se tornou referência no ensino brasileiro. Há coerência entre o gramático e o romancista: nos dois papéis, Ribeiro queria substituir a tradição pela ciência, descrever os fatos, da língua ou do corpo, como um naturalista descreve um organismo. Em A Carne, essa ambição aparece no vocabulário fisiológico, nas teses deterministas sobre herança e temperamento e na franqueza com que trata a sexualidade feminina, o verdadeiro tabu que o livro rompeu. A filiação a Zola não é apenas de doutrina: Ribeiro chegou a transpor cenas inteiras do mestre francês para dentro do seu romance (MENDES, 2003), e é dele a formulação que resume a tese do livro, a de que a histeria seria sintoma de uma castidade impossível (MENDES; CAMELLO, 2019).

Uma polêmica célebre

A reação mais famosa veio de um religioso: o padre Sena Freitas publicou uma crítica demolidora ao romance, acusando-o de imoralidade, e Júlio Ribeiro respondeu na imprensa com virulência equivalente, a troca de artigos ficou registrada na história literária como uma polêmica célebre, das mais ruidosas do século XIX brasileiro. O escândalo consolidou a fama do livro e do autor, mas Ribeiro teve pouco tempo para colhê-la: morreu em 1890, dois anos após a publicação, vitimado pela tuberculose, aos quarenta e cinco anos. A posteridade oficial acabou por acomodá-lo: a Academia Brasileira de Letras o inscreveu entre os patronos de suas cadeiras.

Como ler (e ouvir) A Carne hoje

A crítica moderna trata A Carne com um misto de interesse e reserva: interesse pela audácia do tema e pelo documento que o livro oferece do cientificismo oitocentista; reserva diante das teses deterministas, que envelheceram como envelhece toda ciência transformada em dogma. Mas é justamente aí que mora seu fascínio atual. Lenita, mulher que estuda, pergunta e deseja num mundo que não previa nada disso, ficou maior que as teorias do seu autor, e o romance, lido hoje, vale tanto como narrativa quanto como retrato de uma época que acreditou poder explicar o desejo humano com a régua do laboratório.

Sobre esta edição

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Fontes

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Consultadas na íntegra

  1. MENDES, Leonardo; CAMELLO, Cleyciara Garcia. O homem (1887), de Aluísio Azevedo, como best-seller erótico. Alea: Estudos Neolatinos, Rio de Janeiro, v. 21, n. 3, 2019. DOI: 10.1590/1517-106X/20192136580. Disponível em: https://www.scielo.br/j/alea/a/hwB3G75xrjfFLfYKsNfz6NH. Acesso em: 25 ago. 2026. doi.org
  2. MENDES, Leonardo. Naturalismo com aspas: Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha, a homossexualidade e os desafios da criação literária. Gragoatá, Niterói, n. 14, p. 29-44, 1. sem. 2003. Disponível em: https://periodicos.uff.br/gragoata/article/download/33444/19431. Acesso em: 25 ago. 2026. periodicos.uff.br

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